Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Livro do Tempo

O que se sabe hoje, é infinitamente menos do que na realidade existe!

O que se sabe hoje, é infinitamente menos do que na realidade existe!

A saga de ser humano, numa terra de cachorros.

a saga de ser humano, na terra de cachorros.jpg

A saga de ser humano, numa terra de cachorros.

 

Os dias de verão têm destas coisas, podemos com maior acuidade prestar atenção a determinados detalhes, sem prejuízo das importantes tarefas diárias que uns dias de recarga exigem a qualquer humano que se preze.

Por erro ou omissão, sabe-se lá agora o que terá acontecido, a celebre frase de “quanto mais conheço o ser humano, mais gosto de cães” erradamente atribuida a Eça de Queiróz, não é mais do que um desabafo de Alexandre Herculano. Pese embora a época do romantismo estar sempre presente, foi um dos grandes aprendizados obtido estes dias e isto graças a uma desenvolta conversa que apreciei junto a um jardim público em que vizinhos trocam uma animada conversa de fim de manhã, juntamente com o cachorrinho de um dos presentes, atrelado e bem controlado, porque embora pequeno, não vá o diabo tece-las e começar a importunar por aí toda a gente.

A determinada altura, um dos presentes solta a setença proverbial do dia, quiça dos anais da história recente, proferindo ao som de que se ouvisse claramente: os cães são mais inteligentes do que a maioria do seres humanos.

Acredito que o cachorrinho, se soubesse o que estava a fazer e lhe fosse dado pelo menos um neurónio em perfeitas condições, teria dito que seria melhor os donos terem trazido a casa de banho junto, porque ele estava a sentir-se envergonhado, pela merda que estava a participar.

Com certeza que a maior qualificação, vai para os de casa, aquele que vinha atrelado, que necessita de ser controlado e que ninguém ouve.

O meu espanto vai, também, que após umas muito ligeiras investigações, estes desabafos na relação que o ser humano pretende entre si próprio e os animais, é muito mais abrangente no tempo e na tipologia social. Parece haver uma tentativa de amestrar um ou eventualmente um ao outro. Ao longo da história temos inúmeros casos, só os mais famosos, de grande companhias.

Ainda estou na dúvida se esta classificação de melhor amigo do homem, seres mais inteligentes do que os seres humanos, fiel amigo, não deverá ser identificado apenas o cachorro ou cão, se tem alguma ligação ao facto do animal ser obediente, submisso ou se é assim naturalmente.

Se reflectirmos um pouco, existem também inumeras histórias de animais, do mais variado tipo, desde domésticos, até de entretenimento, que ficam completamente passados dos carretos e viram-se contra tudo e contra todos, principalmente contra o dono, chegando a vias de facto muito dolorosas e muitas vezes terríveis, com consequências devastadoras e aí surjem as notícias de que cão de boa gente, sempre foi bem comportado e obediente, deixou de o ser, para virar cão para abater ou se tiver sorte, vai preso para um qualquer canil. O pobre cachorro tinha cansado de comparações com o ser humano e de tantas vezes ouvir que era mais intelegiente e mais amigo do que o homem ou a mulher. Provavelmente tinha tentado fazer-se ouvir por diversas vezes, mas como não encontrou eco, decidiu revoltar-se. Pobre cachorro, que vida que levava e a troco de deixar de ser obediente e submisso, perdeu-se para a vida,  pelo menos para esta.

Que coisa estranha. Afinal parece que a relação entre os seres humanos, do mais diverso padrão social e até mesmo familiar, passando pelas relações inter raciais, são classificadas pelo nível de obediência e submissão entre os pares.

Fulano é uma excelente pessoa, com um comportamento exemplar, um profissional da mais elevada classificação e mesmo com tudo isto, ainda consegue ser um amigo como já não existe neste mundo, é um exemplar em vias de extinção. E porquê? Porque faz tudo o que o seu classificador diz para fazer, há hora e nas condições que o mesmo assim determina.

Certo dia, a mesma pessoa decide seguir outro caminho, que não em relação ao seu anterior classificador e então o dito fulano passou a ser um desviado, dono de ter cometido um atentado a uma amizade de tantos anos. Como, por cá, costumamos dizer, de fulano bestial com as mais altas condecorações, passou a uma reles besta desclassificada e então aí seria bem melhor ter um cachorro, de preferência daqueles que come pouco, porque a trabalheira não seria muita.

Recuso-me a pensar e admitir que a comparação possa ser deste âmbito, nivelar-se a um desconhecimento completo do que são os animais e o respeito que deveremos ter por eles, como admitir que homens e mulheres não tenham a capacidade de reagir aos tratamentos que lhe são dados.

Naquele dia, tive a tentação de perguntar à pessoa, se lhe desse um valente de um murro na cara, se ele iria gostar, mas não quis aventurar-me a uma falta de inteligência, que com certeza iria me chocar ainda mais.

Parece haver uma grande dificuldade, neste contexto de tratamento de relação, seja ela próxima, seja com desconhecidos, em atribuir a mesma qualidade que é atribuido ao cacharro.

Vejamos, muitas das vezes que os animais reajem com violência, mesmo sendo principescamente tratados, ou até mesmo nos parametros reais, reagem mal pelo cansaço de serem tão bem tratados, imagine-se isso com homem e com mulher e não precisam ser casados, bastou o cansaço.

Esquecemo-nos com facilidade, nós os eleitos humanos, donos de pensamento próprio, que os ditos foram criados para gerar pensamento diferente, todos entre si. Actualmente, dos sete mil milhões de cabeças pensantes existentes na terra, não existem duas iguais, como também não existem duas formas de reacção iguais. Por vezes até apetece reagir como cachorrinho, mas outras vezes tem que a reacção é mais de acordo com a personalidade do reagente.

Quem sabe um dia, talvez mais próximo do que se possa pensar, o jardim estará cheio de gente a dizer que quanto mais passeia o cachorro, mais gosta do ser humano. As perspectivas sempre se adequam a cada circunstância.

Também acredito que o Alexandre Herculano possa ter tido aquele desabafo, porque o dia não terá sido muito bom, nas sua perspectiva.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D